Desafio Guinness: 18 Horas, 53 Minutos, 00 Segundos
O praticante de atletismo adaptado, detentor do recorde do Guinness para a maior distância percorrida em cadeira de rodas, esteve ontem em Coimbra, para dar o seu testemunho a jovens do 12.º ano da Escola Secundária José Falcão.

Já representou a Selecção Nacional de Basquetebol, fez escalada, canoagem, slide, "moto 4", hipismo e orientação, mas é hoje nas pistas que tem conseguido maior reconhecimento. Mário Trindade, aos 32 anos, já conseguiu escrever o seu nome nas páginas do desporto adaptado, ao conseguir bater o recorde da maior distância percorrida em cadeira de rodas, em Dezembro.

Ontem, o atleta de Vila Real, passou pela escola José Falcão, a pedido de alunos do 12.º ano para falar da sua experiência.

Mário Trindade, "preso" à cadeira de rodas desde os 17 anos de idade, gosta de falar em dois "nascimentos": um, há 32 anos atrás, e o outro, no dia em que percebeu que iria para sempre ter a companhia da cadeira de rodas.

Depois de vários anos a trabalhar, sem estar ligado à área do desporto, foi convidado para pertencer a uma equipa de basquetebol para deficientes motores e chamado para um estágio da selecção nacional no ano 2000.

Só em 2003, Mário Trindade, teve conhecimento da posssibilidade de praticar atletismo em cadeira de rodas, "mas se a descoberta me fez voltar a sonhar com o meu desporto favorito [que começou a praticar aos 11 anos], quando soube o preço de uma cadeira de rodas de competição, perdi logo as esperanças".

Praticar basquetebol em cadeira de rodas "é mais fácil, porque o desporto está mais implementado em Portugal, o material é mais barato e há uma associação que financia a compra das cadeiras".

No entanto, o sonho do atletismo manteve-se presente, e o atleta conheceu a Associação de Deficientes de Braga, que tinha a modalidade de atletismo em cadeira de rodas. "Emprestaram-me uma cadeira já velhinha mas ainda operacional e comecei a minha prática desportiva". Durante cerca de um ano, Mário Trindade usou a cadeira emprestada, mesmo sendo este material feito à medida do atleta, mas percebeu que precisava de uma cadeira nova, para realizar os seus intentos.

Foi aí que sentiu necessidade de expor a sua situação à comunicação social e "no dia em que saiu uma reportagem na televisão, um senhor me ligou a pedir-me o NIB para me enviar o dinheiro da cadeira que precisava".

Um exemplo de esforço e dedicação

Conseguido o dinheiro para a cadeira, faltava deslocar-se à Alemanha, onde seria construída a nova cadeira, para que fizesse os testes necessários. "Já que estava na Alemanha, aproveitei para correr numa maratona, em que participavam 41.000 pessoas, mas tive azar e caí passados uns quilómetros". Com uma perna partida, decorrente da queda, "só tinha duas opções. As ambulâncias só chegavam no final de passar toda a gente, e passarem 41.000 pessoas não ia demorar pouco, então decidi pedir ajuda para me levantar, continuar durante 21 quilómetros com a perna partida e acabar a prova", conta o atleta. "Mal cheguei ao final, fui na primeira ambulância para o hospital e regressei a Portugal com uma perna engessada".

Já com a nova cadeira, "porque sempre gostei de desafios, entrei em contacto com o Guinness, para saber quantas voltas tinha que dar a uma pista para bater um recorde". Não havia, no entanto, nenhum registo em cadeira de rodas neste âmbito, excepto "o recorde de maior distância percorrida em cadeira de rodas, 181 quilómetros e 147 metros".

Decidido a vencer mais um desafio, Mário Trindade treinou-se, para, no Dia Internacional do Deficiente (4 de Dezembro), bater esse recorde, e conseguiu. Para o Guinness Book, figura agora a marca de registo de 183 quilómetros e 200 metros, em 18H50.

Depois de ultrapassado mais um desafio, os esforços centram-se agora na possibilidade de conseguir chegar aos Jogos Paraolímpicos. Mas falhada a meta de 2008, as baterias são apontadas para 2012.

No final da palestra, as palavras foram de incentivo e agradecimento, por parte de alunos e do próprio director do conselho executivo da escola, Etelvino Rodrigues. O presidente, que preferiu afirmar que "não há pessoas deficientes, mas sim diferentes", ofereceu ainda a Mário Trindade uma medalha comemorativa dos 170 anos da escola.

De entre a plateia, surgiram ainda algumas questões, como a "falta de adaptação das escolas para pessoas com mobilidade reduzida, como acontece com esta", ao que o convidado lembrou que tem "tentado alertar para essas situações, mas só quando tenho a comunicação social comigo consigo algum feedback".

Noticia do Jornal asbeirasonline